Zumbis em Porto Alegre
Anotação 28
O início do inverno tem sido rigoroso e tenho tido pouca
disposição para escrever. Nem sei por que hoje resolvi pegar a caneta e o
diário. Acho que é efeito do vinho que estava à muito tempo guardado num canto
e que resolvi abrir. Todos resolveram descansar um pouco então aproveitei para
rabiscar aqui e continuar contando nossa ida até os quartéis naquele fim de
verão.
A temperatura, mesmo no final de verão por aqui é
escaldante. Nunca entendi esses altos e baixos da temperatura por essas terras
gaúchas. Era capaz de amanhecer com menos de dez graus e no meio da tarde
chegar à mais de trinta.
E nós quatro estávamos sentindo muito bem esses efeitos. O
peito doía e o suor escorria por nossos rostos em quantidade. Estávamos com um
problemão. Chegar aos quartéis furtivamente, passando por centenas de zumbis,
escolhendo o caminho com cuidado, parando para descansar, era uma coisa. Agora,
fazer isso com essa centena em nosso encalço, correndo como loucos, sem ter
como parar para tomar um fôlego, era muito diferente.
Contornamos o prédio 40 e começamos a cruzar o estacionamento
da PUC. Eram poucos os carros parados ali, o que facilitou muito nossa fuga. De
onde estávamos tínhamos duas alternativas. Ou iríamos para a avenida Bento
Gonçalves, onde estava a saída do estacionamento, mas com muitos zumbis, ou
íamos para a parte lateral e pulávamos o muro. O Michel, que corria na frente,
acabou decidindo por nós e correu para o muro. Não era muito alto e com um
pouco de ajuda uns dos outros conseguimos pulá-lo muito antes dos zumbis nos
alcançarem.
Estávamos numa estreita viela que separava o terreno da
universidade de um pequeno posto da Brigada Militar de Porto Alegre, o Batalhão
ambiental e uma vila. Esta pequena viela ligava a Bento Gonçalves com a avenida
Ipiranga. Paramos por um minuto discutindo qual o rumo deveríamos seguir. Ir
pela viela para um lado ou para outro seria muito perigoso demais, pois as
rotas de fuga eram em menor número, além de que corríamos o grande risco de
encontrar mais zumbis por ali. Decidimos pular o muro para o terreno da Brigada
e cortar caminho, como era nosso plano original. Além de que ali poderia haver
algo de útil para nós.
Pulamos rapidamente bem atrás de um prédio comprido. Fomos
até a beirada para verificar as condições do terreno. De onde estávamos
tínhamos uma boa visão da área interna e de sua saída para a Bento Gonçalves.
A visão não foinada animadora. Havia uma barricada
semi-destruida no portão de entrada. Eles devem ter tentado realizar um refúgio
no quartel, mas não deve ter dado certo. Muitos corpos carbonizados estavam espalhados
por vários cantos. Era macabro, embora fosse um alívio sabermos que aqueles ali
não iriam correr atrás de nós. Duas viaturas queimadas estavam encostadas em um
dos prédios, do outro lado do pátio interno, igualmente queimado. O único
prédio inteiro era onde estávamos.
Resolvemos entrar e tentar resgatar algo. Michel e Renan
foram verificar um dos lados e eu e o Raul o outro. Como estava tudo limpo
resolvemos entrar pelos dois lados. Eu cheguei perto da porta mais próxima de
nós e espiei para dentro. Ela estava entreaberta, mas coberta de manchas de
sangue seco e enegrecido. A saleta de entrada, algo como uma recepção, estava
desarrumada e com móveis virados, mas felizmente vazia. Depois de entrarmos
verificamos cômodo por cômodo e não encontramos nenhum dos monstros. O Renan e
o Michel fizeram a mesma coisa e não encontraram nada até que nos acharam.
Conseguimos pouca coisa útil ali - um pouco de munição,
duas armas perdidas pelo chão, pilhas e umas barras de cereal que usamos como
almoço. Havia ali uma barraca de campanha num tamanho razoável, mas que não nos
permitia carregar com facilidade. Deixamos ela num canto próximo da entrada
para tentar levar quando retornássemos.
O que nos chamou a atenção foi a sala de comando dali.
Havia muitos mapas com anotações e emails espalhados pelas mesas. As notícias
que encontramos não foram nanda animadoras. Nos primeiros quatro dias depois
que as coisas pioraram praticamente todas as principais cidades do Brasil
tinham focos de zumbis se espalhando rapidamente. Nas capitais as coisas eram
piores devido à grande massa populacional. Todas as iniciativas das forças
armadas se mostraram inúteis e barreiras não foram o suficiente para frear o
avanço daquelas coisas.
Alguns campos de refugiados haviam sido preparados próximo
de aeroportos, mas a maioria foi, um a um, sendo invadida e desocupada. Alguns
dias depois, segundo os emails, já tínhamos um vácuo de poder no Brasil.
Contatos com representantes estavam cortados desde que Brasília houvera caído.
Uma missão de resgate havia sido programada pela aeronáutica, para chegar ao
Palácio do Planalto, mas pelo visto não teve resposta.
Ao que parece eles duraram, entrincheirados naquele quartel
um bom tempo, pois havia emails de quase três semanas depois que o inferno começou.
Não sei como eles conseguiram manter algo tão frágil quanto o sinal de internet
funcionando por tanto tempo, mas tinham conseguido.
Os mapas espalhado mostravam a área de Porto Alegre e o
avanço dos monstros. Toda a área sul e norte da cidade foram as primeiras a
serem infestadas, depois o centro e o bairro Partenon, justamente as zonas mais
populosas. Todas as pontes que atravessam o Ipiranga foram dinamitadas, à
exceção da ponte da avenida João Pessoa e da avenida Padre Cacique. Isso seria
um problema se tivéssemos de ir para a zona norte da cidade, mas não nos
preocupamos com aquilo naquele momento. Juntamos os mapas e anotações. Eles
poderiam ser úteis em algum momento.
Como tudo estava tranqüilo e relativamente seguro
resolvemos realizar o primeiro contato via rádio com o pessoal que ficou em
nosso refúgio. Era o primeiro contato desde que havíamos sápido.
Deu para escutar a festa que eles fizeram quando receberam
nosso chamado. Numa situação incerta e perigosa como esta, tanto tempo sem
manter contato, já os havia deixado preocupados. Todos conversamos rapidamente.
Foi bom escutar a voz da Juliana de novo.
A conversa não durou muito, pois estávamos ainda longe de
terminar nossa missão e o tempo não parava.

