domingo, 27 de janeiro de 2013

Dicas do Mestre: O estranho preconceito dos adeptos do RPG



O estranho preconceito dos
adeptos do RPG
 

Uma noção que sempre tive era de que os adeptos do RPG eram, em sua maioria, pessoas bem resolvidas, de mente aberta e sempre prontos para as novidades. Por muito tempo tivemos, principalmente em nossos primeiros anos de caminhada deste hobby pelo Brasil e pelo mundo, que enfrentar os rótulos de ‘estranhos’, o estereótipo de nerds recalcados e a alcunha de adoradores das forças ocultas. Não foram poucas as vezes que notamos as caras de espanto ou de desprezo de parentes, pais e amigos quando contávamos de nosso gosto pelo RPG. Toda a geração inicial do RPG no Brasil se lembra disso.

Como jogador de RPG, não que isso me faça (ou nos faça) melhor do que os outros, mas sempre dei importância para as novidades, para o inovador, para o ímpar. O mesmo sentido de inovação foi o que possibilitou que o RPG evoluísse e desenvolve-se numa prática agora sem barreiras e com tatos adeptos.

Por tudo isso acho muito estranho que dentro do próprio segmentos dos rpgístas exista tanto preconceito enrustido. Tenho percebido isso nos últimos tempos não em vários segmentos do imaginário e dos gostos que dividimos.

De uns tempos para cá a escolha de certos sistemas têm sido quase que um dogma religioso. Existem grupo que não podem nem ouvir falar deste ou daquele sistema que se armam até os dentes e partem para o combate dos ‘infiéis’. Essa atitude existia nos primórdios dos anos noventa, mas pelo menos os debates eram mais maduros e embasados em questões conceituais. O tripé GURPS-AD&D-VAMPIRO rendia bons e divertidos debates sobre o porquê de este ser melhor do que aquele e pior do que aquele outro.

Mas as redes sociais, fóruns e sites nos mostram uma atitude muito diferente de tempos para cá. Ou você curte tal sistema ou é inimigo. Ou compartilha tal opinião ou não serve para ser do ‘nosso’ grupo.

Ok, sei que isso é um reflexo da sociedade atual, mas, repetindo o que disse no início, achei que os adeptos do RPG não passariam por esse fenômeno. Não que sejamos superiores, mas por toda a nossa história.

Outra coisa que me chamou a atenção foram as reações exacerbadas de muitos ‘nerds’ de plantão e neófitos com certos conceitos de que se adonaram. Um grande exemplo disso foram as reações desse grupo sobre os zumbis.

Foi impressionante a reação deste ‘seleto’ grupo de ‘entendedores e formadores de opinião’ quando foi lançado o trailer do filme “Meu namorado é um zumbi”, dirigido por Jonathan Levine e que estreia este ano. Para quem não sabe nada sobre o filme ele é baseado na obra literária “Warn Bodies”, de Issac Marion e lançado pela editora Leya no Brasil, onde ele mostra o mundo pelos olhos de um zumbi que acaba se apaixonando por uma garota. Na minha época isso se chamava sátira. Mas para esse grupo de ‘entendedores’ é uma afronta ao conceito tão adorado e venerado por eles.

Nas redes sociais tivemos todo o tipo de comentário pejorativo mesmo sem o filme ter sido lançado. Muitos nem devem ter lido o livro. As justificativas pela desaprovação eram das mais hilárias, para não dizer deprimentes. Diziam que isso iria acabar com a visão séria sobre o assunto, que isso era uma afronta e uma gozação com aquilo que adoravam, que todos deviam boicotar o filme. Se dependesse desses entendedores revistas como “Mad” e os filmes teatralizados do grupo Monty Python nunca teriam saído do chão. Ou será que nerd não pode rir?

Outro exemplo foi com a Saga Crepúsculo e seu conceito de Vampiro. Nunca vi tantos comentários que iam do maldoso ao impublicável simplesmente por que uma autora teve a ‘audácia’ de ter uma ideia diferente do conceito ‘comum’ sobre o tema. Esquecem que, não importando a forma de usar o conceito, autoras como Stephen Meyer ou J.K. Rowling foram as responsáveis por um enorme incentivo à leitura e à criação de uma grande massa de novos leitores. Ou será que isso não importa se não for Tolkien ou George Martin?

Esses grupos de novos nerds (se é que posso chamar assim) simplesmente se adonaram de conceitos e acham que possuem sua patente. Não quero parecer defensor deste ou daquele conceito. Quero é repudiar a atitude que, se me lembro bem, foi um problema que tanto rpgístas quanto nerds sofreram muito. Eles agem como se tudo o que é publicado de literatura fantástica ou novos sistemas de RPG fossem uma das sete maravilhas do mundo. Agem como se fossem a palavra final da qualidade de qualquer tipo de produção artística. Agem como se fossem os visionários que acham que são.

De onde veio tudo isso? Muito foi de uma noção equivocada de que os ‘nerds’, e dentro deste grupo os rpgístas, fossem eruditos ou sofisticados. Sempre percebemos das vantagens e qualidades do RPG, meu tema principal, e assuntos afins para: se aprender uma nova língua (quando traduzíamos livros e mais livros importados); para incentivar leituras e pesquisa que temas que nos agradava ou que desejamos usar em nossas campanhas; para liberar a imaginação de formas que nem imaginávamos. Por isso e por muito mais nos víamos, e passamos a ser vistos pelos outros, como intelectualizados, eruditos, sofisticados e tantas outras alcunhas.

Em resumo... esses conceitos subiram à cabeça de muitos, principalmente a geração mais nova que já chegou com nosso espaço conquistado e não passou por muito do que nós tivemos de passar.

A inovação, o diferente, o novo, essas noções foram justamente as maiores e mais importantes alavancas que transformaram o que o RPG é hoje.

Essa postura equivocada deve ser repudiada e abolida. Essas errôneas concepções foram os alvos de nossa luta por muito tempo. E justamente esta luta foi o que possibilitou que desenvolvêssemos tanto o RPG, a literatura fantástica e tantos outros segmentos afins. Não podemos confundir nossa preferência com uma ditadura maniqueísta do certo e errado. Incentivar o novo sempre foi a melhor forma de chegarmos ao desenvolvimento.

5 comentários:

Artur.SMD disse...

Concordo com todas as suas colocações quanto a postura dos chamados "nerds" atuais. Poderíamos até expandir o conceito para os quadrinhos, por exemplo, onde fãs de Marvel não gostam da DC e vice-versa. Assim como jogadores de DOTA detestam o jogo chamado League Of Legends.

Mas, sob hipótese nenhuma devemos desconsiderar, as críticas, também, que hoje a cultura nerd não pertence mais a apenas aos nerds e sim ao grande público. Devido a isso, considero normal que haja revolta em relação a determinados trabalhos voltados ao grande público, que desagradam a uma parte dos formadores de opinião cujas ideias de críticas podem ser válidas, mas que muitas vezes não enxergam a que público foi destinado um produto e as suas qualidades para o mesmo.

O que quero dizer, enfim é que hoje. A "cultura nerd" que envolvia jogos, RPGs, quadrinhos, livros, card games etc felizmente se popularizou e que agora pode ser compreendida e adimirada por muitos. Entretanto, não dá para se agradar a todos... E que isso é normal, mas volto a concordar com você que independente do que ocorro o respeito pela obra, fãs e o trabalho deveriam ser respeitados pelos nerds acima de tudo. Porque durante muito tempo foi isso que os "nerds" não tiveram e que hoje podem usufruir.

Black Barth disse...

Eu até concordo que o universo Nerd está meio deturpado nos dias de hoje, com a alta popularização desse universo, mas tenho que discordar em alguns pontos no que se diz ao RPG. Concordo que ainda existe uma imensa fatia de jogadores que pregam"GURPS é ruim, Pathfinder é o melhor sistema,...", mas ainda há muita gente aberta a experiências novas. Vejam iniciativas como o evento GURPS Brasil que bombou a Devir, e projetos como o Financiamento Coletivo do Savage Worlds pela Retropunk. Isso sem falar na quantidade imensa de empresas pequenas (as chamadas indies) que conseguiram um bom espaço no Brasil como a RedBox, Retropunk, Coisinha Verde e por ai vai. Essas empresas jamais conseguiriam sequer entrar no ramo se não houvesse um publico para recepcioná-los. O artigo dá a entender que o grupo RPGista está numa guerra de opiniões, mas acho que ele é meio tendencioso.

Pelo menos é minha opinião.

Kimble disse...

Ótimo artigo. Realmente existe muito preconceito e intolerância, infelizmente vindo mesmo de gente que trabalha nesse mercado e que deveriam ser os primeiros a incentivarem as pessoas a jogarem (afinal, quanto mais jogadores melhor para todo mundo).
É uma pena que seja assim, mas não é um fenômeno que se restringe ao Brasil.

João Brasil disse...

Salve pessoal...

Kimble, amigão, obrigado pelo elogio!!!

Artur e Black Barth, obrigado pelos elogios e comentários. A cultura nerd tem ultrapassado barreiras e atingido o grande público, é verdade. Por isso mesmo que é ainda mais imperioso que nossa crítica seja altamente embasado e não sustentada por argumentos protecionistas e excludentes. Entendo que quando mexemos em algo que por tanto tempo identificava um grupo acabamos por, em última análise, mexendo em suas referências.

Quanto ao RPG ainda é, de todos os segmentos, o que resiste mais à este tipo de pensamento excludente. Mas o grande número de novidades ainda é reflexo mais de uma fragmentação do mercado do que de uma aceitação colética da totalidade do jogadores de RPG!!!

Um abração!!!!

ÁLVARO O BARDO disse...

Ótimo artigo, devemos ter em mente que o processo de popularização traz o processo de massificação também, e a cultura nerd não poderia estar isenta disso.
Entretanto, cabe ao mais velhos fazerem os outros - sim, estes, que assim como eu entraram no mundo NERD em 2000...- abrirem os olhos e entenderem que a própria massificação é porta de entrada para o conhecimento de outras obras, sejam estas ortodoxas ou não, clássicas ou atuais.
Enfim, o que não dá é ficar de discussão besta, pois toda a cultura nerd é entretenimento; e convenhamos quando falamos nisso, falamos em diversão e cada um tem seu jeito de se divertir. Então exercite a tolerância e respeite o gosto do outro.