quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Conto: Silêncio - um conto sobre zumbis


Por muito tempo, não sei quantos dias, quando se fica preso sem poder ver sequer a luz do dia, fica difícil contabilizar este tipo de conta, mas acho que já faz uns dois meses que estamos aqui, presos dentro deste inferno chamado loja de brinquedos.

Foi muito rápido, a TV começou a divulgar alguns tumultos em umas cidades da Ásia, perto da Rússia, acho eu, sei é que as pessoas estavam pirando. No outro dia, estava na casa da Raquel, quando a TV divulgou uma cena nos EUA de um grupo de pessoas fugindo da cidade onde moravam em Seattle. Lembro até hoje do nome da cidade, por causa da banda Nirvana, minha preferida; esse pessoal foi entrevistado e disseram que as pessoas de lá estavam se matando.

Depois disso, foi só correria e pânico. Perdi meus pais, um irmão e a minha namorada Raquel também perdeu os seus pais. Até onde sabemos, sua irmã conseguiu fugir, não se sabe para onde.

Raquel interrompe:  

- Carlos! Estão batendo na porta!

- Fica quieta.

- Abram! – Exclama uma voz tremula em desespero.

- Eu sei que tem gente aí!

- Abram merda!

- Eles vão me pegar!

- Droga, Raquel, vamos ter que deixá-lo entrar se não o zumbis vão nos ouvir.

- Carlos, cuidado.

- Certo, vai para trás do balcão!

- Vamos logo, abre! - diz o maldito visitante inesperado

- Calma cara!

- Abre!

- Eles estão perto!

- Vai!

Com muita dificuldade, pois havia muitas coisas em frente à porta, consigo liberar a entrada, abrindo-a para o homem que pedia socorro.

- Fecha! – grita ele desesperado.

- Vai, fecha!

- Meu Deus, Carlos, fecha logo, tem milhares lá na frente!

- Tô tentando! – respondo com dificuldades.

Os mortos vivos já haviam chegado na porta e enfiavam os braços pelas fendas para tentar nos agarrar.

- Me ajuda aqui cara, não to conseguindo segurar a porta! - Digo.

- Carlos! A janela!  – Grita Raquel.

- Merda eles estão entrando!

- Viu o que você fez seu filho da puta! Vamos morrer!

- Cala a boca e empurra! – retruca o homem sem nome.

Pelo canto do olho, vi Raquel pegar um taco de basebol, que a loja de brinquedos vendia, e começar a bater nos braços dos mortos vivos que estavam quebrando a janela.

Naquele momento já podíamos sentir o cheiro de carne podre que os corpos dos zumbis exalavam por estarem em decomposição, podíamos sentir o desespero destes monstros para saciar a fome que lhes corroíam as entranhas. Salivava um sangue negro e denso que escorria de suas bocas, como se estivessem se preparando para cravar seus dentes em uma carne úmida, vermelha e extremamente quente.

- Raquel, cuidado! – grito.

- Carlos me ajuda! Me pegaram!

- Cara não sai daqui! Se soltar eles vão entrar! – diz nosso novo integrante

- Tudo isto é culpa sua, seu desgraçado!

- Não solta! Não solta! Têm muitos lá fora, eles vão entrar!
Ele me ordena com cólera.

- Foda-se! Não vou deixar que a mordam!

Largo a porta e numa corrida, pulo em cima de Raquel, libertando seu braço que estava preso por uma mão podre que atravessava a janela de madeira.

O que não podíamos imaginar era o quão rápido os zumbis conseguiram encher a sala de entrada da loja. Pela primeira vez, bem de perto, pudemos ver o que se tornaram aquilo que um dia foi chamado de vivos.

Peles podres, sangue coagulado pelas roupas, braços e parte dos rostos arrancados ou mordidos e o pior de tudo, crianças. Vimos atacarem o homem que até pouco tempo atrás tentávamos ajudar, e isto infelizmente foi a nossa sorte, pois eles se distraíram primeiro com a sua carne.

O primeiro zumbi o mordeu pelo braço com tamanha pressão que o segundo zumbi não teve dificuldade de morder a sua face arrancando parte de seu olho, nunca vi tanto sangue jorrar, nunca ouvi gritos de dor como a que aquele homem desconhecido pronunciou.

- Seus merdas! Seus merdas! – foram as últimas palavras do homem sem nome.

- Raquel, pros fundos! – digo desesperadamente.

- Vai!

- Carlos!

- Vai!

- MeuDeus! MeuDeus!

- Raquel sobe!

- Sobe as escadas!

- Carlos!

- Vai!

- Sobe!

- Aqui, Raquel me ajuda a empurrar um armário.

- Vai, empurra!

- Carlos eles estão subindo!

- Eu sei porra, me ajuda!

- O armário cai, levando os primeiros zumbis escada abaixo, e isto me dá tempo de ver uma única porta aqui encima.

Aponto - Raquel, lá, vamos entrar!

- Fecho a porta: - não acredito! - É um banheiro! Fudeu.

- E cadê a merda da janela?

- Carlos a porta não vai aguentar!

- Mas que merda!

- Merda, merda, merda!

- Carlos, a luz tá falhando – Raquel diz, olhando para o teto e vê a última fagulha de luz se apagar.

 O barulho que os zumbis fazem ao bater na porta, sem parar por nenhum segundo, é ensurdecedor.

- Shhh! –Digo ... e, em tom quase inaudível comento: Olha só, senta aqui. Vamos ficar quietos, talvez eles se esqueçam e daqui um tempo acabem indo embora.

- Mas Carlos?

- Silêncio Raquel, silêncio. Não se preocupa que vou pensar em algo certo? Agora silêncio.

Silêncio.


NOTA: Este é o primeiro conto de Marcelo brasil, meu irmão, aqui na Confraria de Arton. Curtam, comentem e aproveitem. Em breve novidades.

4 comentários:

diego-lif disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fran disse...

Muito instigante! Fiquei curiosa pra saber o que acontece xD

Mto bom Marcelo!

Patty Brolo disse...

Show, fiquei curiosa para saber mais.

Anônimo disse...

Grande Brasil!
Muito bom o diálogo, dose certa com os palavrões, deixa um gosto de quero mais...

Alexander Silveira Knevitz