sexta-feira, 26 de junho de 2015

Perseguido na Escuridão - micro-conto futurista pós-apocalíptico

Perseguido na escuridão
- micro-conto futurista pós-apocalíptico -

A chuva chocava-se contra o seu rosto insistentemente enquanto ele corria pelos escombros do que já fora, muito tempo atrás, uma rua movimentada de uma grande cidade. Os escombros, ao mesmo tempo que serviam de proteção, também o atrasavam e isso era um problema. Ao menos eles também lhe propiciavam as sombras para obscurecer seu traçado irregular pela rua.

Ele escorou-se de costas contra um pedaço de parede para tomar ar e tentar ver alguma coisa. Esta parte da cidade tinha ainda energia elétrica. Ele nem imagina como nem por que, mas alguns postes ainda iluminavam parcelas menos destruídas da cidade. A chuva fina e fria nublava sua visão juntamente com o vapor que saia de sua boca. E nem era inverno ainda.

Ele fixou os olhos enquanto passava a palma da mão sobre a fronte para tirar o excesso de água. Um som metálico e algumas lascas de concreto denunciaram que ele escapara por pouco de ser alvejado na cabeça. O susto o lançou sentado no chão úmido, mas ele não tinha tempo para lamentar ou mesmo para agradecer por ter escapado. Pegou sua mochila e seu rifle e voltou a correr. Ainda faltavam algumas quadras para se considerar relativamente seguro. Eles nunca tentaram atacar qualquer um dentro daquela área e lá ainda teria apoio, seu refúgio.

Ele corria como um louco, mas de forma ordenada. Os anos o treinaram para ser veloz mesmo com um terreno impeditivo como este. Saltar, escorregar, se arrastar. Tudo era feito com velocidade e maestria, mesmo com uma longa e pesada arma nas mãos e outra às costas, além da mochila. Alguns anos atrás o que ele estava fazendo seria chamado de parkour. Hoje era uma lembrança esquecida e sem referências.

Mais um disparo zuniu ao lado de sua cabeça. Eles não estavam brincando e duas vezes já era sorte demais para um dia. Teria que procurar mais proteção. Estava chegando à área escura da cidade, que circundava o reduto da resistência, o que significava mais proteção das sombras mas, ao mesmo tempo, menos velocidade.

Um relâmpago ao longe iluminou um estacionamento que ele conhecia bem. Seria um ótimo atalho, lhe poupando pelo menos duas quadras de percurso. Seu coturno estava ensopado, mas era um problema ínfimo frente ao resto e ele só pensava em correr o máximo possível.

Ele corria e corria. O parkour teve que dar espaço para uma corrida mais segura e cadenciada dentro daquele breu. Duas ou três vezes ele esbarrou em carros abandonados ou outros destroços, lhe ferindo. A roupa grossa o protegia até certo ponto e ele sabia que enquanto não sangrasse não teria perigo de ser mais facilmente rastreado.

Para entrar no estacionamento teve que desfiar e escalar vários carros destruídos, além da vegetação que estava tomando conta de certos pontos das ruas e avenidas. Ele já esteve ali, embora em um momento bem menos tenso, mas se lembrava muito bem da área e do ambiente ali dentro.

No interior do estacionamento a escuridão seria completa em seu interior e ele tinha de ser rápido para chegar ao terceiro andar e passar para o prédio nos fundos, chegando na rua em questão. A escuridão seria um problema para ele e para os outros também.

Ele posicionou o dispositivo de visão noturna. Ali dentro seria menos perigoso deles rastrearem o seu dispositivo eletrônico e mesmo assim seria quase impossível percorrer o estacionamento sem ele. Antes de entrar ele olhou para a rua, atrás dele, e os viu se movimentando rapidamente em três sou quatro pontos diferentes, no chão e nos prédios em ambos os lados.

Ele apenas respirou fundo e entrou.

Com o rifle nas costas ele preferiu seguir com o fuzil, menor e mais eficiente à curta e média distância. Queria percorrer todo o térreo o mais rápido possível. Sabia que se conseguisse se esconder no próximo andar ele estaria quase à salvo pois eles tinham muito menos mobilidade em ambientes fechados. Levemente abaixado e com a arma em posição ele andou velozmente pelo saguão até a entrada da rampa. O dedo tremia encostado no gatilho, pronto para um disparo à qualquer sinal deles.

Todo o ambiente era visto em tons de verde com um pequeno zumbido ao fundo representando seu funcionamento. Ele dava cada passo sempre a espera do sinal sonoro que representasse que alguma coisa estava se movimentando próximo à ele, dentro de um alcance de pelo menos vinte metros. Mas o silêncio, tanto natural quanto do dispositivo, era insuportável. Não fosse por algum gotejar aqui e ali o silêncio seria completo.

Ele subiu a primeira rampa em semicírculo adentrando uma área ampla e praticamente vazia. Quando ainda dominavam esta área ele e seus colegas tinham arranjado os carros abandonados nas laterais do prédio para proteção de ataques externos. Mesmo tanto tempo depois de terem saído dali os carros continuavam no mesmo lugar. Os cadáveres quase desfeitos pelo tempo também.

Ele subiu mais um andar pela rampa e o primeiro sinal estridente soou em seu ponto, no ouvido. Um deles acabava de entrar em raio alcance e seu sinalizador de movimento o estava avisando. Ele deveria estar, provavelmente, no andar debaixo. Era muito perto e, por isso mesmo, muito perigoso. Teria que tomar todo o cuidado possível. Sua melhor opção era diminuir a velocidade para reduzir a possibilidade de fazer qualquer barulho. Eles o estavam procurando e perderiam algum tempo no andar de baixo. Com sorte ele alcançaria o terceiro andar e faria a passagem antes de ser detectado.

Ele deu mais alguns passos cuidadosos e um segundo sinal sonoro apontou outro deles próximo. Isso era muito ruim, mas ainda assim não tinha opção e continuou pela rampa.

Mais dois passos e o inferno sonoro começou. Um sinal, e outro, e outro, e outro. Ele perdeu a conta de quantos deveriam ser. Seu marcador de pulso estava louco com tantos elementos em movimento. Cinco. Dez. Vinte. Não tinha como saber. E o que mais impressionava ainda era o silêncio total.

Acabaram-se as estratégias pensou suspirando.

Ele começou a correr não se preocupando mais com o silêncio. Seria um milagre sair dali vivo. Enquanto engatilhava o fuzil ele puxou da cintura um cinto com algumas granadas e depois fez um disparo à esmo. Tirou o pino de uma delas e jogo o cinto inteiro rampa abaixo. Isso poderia lhe dar alguns instantes preciosos se pegasse-os desprevenidos.

Ele saiu da rampa e correu o mais rápido que podia pelo terceiro andar em direção à uma abertura na parede do tamanho de um carro. Na verdade a abertura tinha sido feita por um carro com ajuda dele e de seus companheiros. Alguns metros à frente e veio a explosão. Aquelas granadas de fragmentação eram potentes e faziam um bom estrago, assim como sua onda de choque não ser pouca coisa. Mas a explosão foi ainda maior do que o esperado. Ele imaginou que eles deveriam estar carregando explosivos também. O impacto o lançou ainda mais em direção à abertura na parede fazendo-o rolar pelo chão. Seu treinamento o possibilitou cair de joelhos, pronto para continuar a corrida. Mas sua visão, pelo dispositivo noturno, ficou desativada devido ao clarão intenso da explosão. Ele levantou o visor e só o que via era a luminosidade fraca que vinha pela abertura na parede.

Atrás dele sons estranhos e incompreensíveis denunciavam que ele havia conseguido acertar muitos deles. Pode não os ter matado, mas tinha conseguido causar um bom estrago. O silêncio estava quebrado por completo e ele começou a reconhecer ordens berradas junto do som típico de armas sendo engatilhadas e outros tantos sons inintelegíveis.

Ele se levantou o mais rápido que pode e começou a correr novamente. O prédio vizinho ficava a cerca de três metros de distância da garagem e eles haviam criado um sistema de rampas para atravessar, mas desta vez ele não teria tempo de arrumar nada. Atrás dele o primeiro disparo zuniu perto de seu joelho. Um segundo passou a centímetro de sua cintura. O terceiro acertou exatamente na parede ao seu lado no exato momento do pulo.

Enquanto ele pulava, atravessando aqueles três metros, apenas pensava - “cinco vezes sortudo”.

Ele despencou no terraço do outro prédio rolando na laje e parando de joelhos virado de frente para o buraco que acabara de passar. Engatilhou o lançador de granadas de seu fuzil e disparou duas vezes para a escuridão no exato momento que um deles apareceu na abertura. A primeira granada o atingiu em cheio despedaçando-o. A segunda explodiu na escuridão, mas ele não tinha nem tempo nem pretensão de descobrir o resultado.

Continuou correndo mais alguns metros até a lateral destruída do pequeno prédio e jogou-se escorregando pela parede inclinada. Atrás dele os sons demonstravam que ainda tinha perseguidores e que eles estavam também pulando. Seu peito doía. As pernas doíam. O ar faltava. Mas seu destino estava cada vez mais perto. Cerca de quinhentos metros.

Ao dobrar uma esquina ele se virou e disparou mais duas granadas de seu fuzil além de alguns disparos simples, mesmo sem ter um alvo na mira e continuou a correr.

Logo depois de dobrar a esquina ele viu uma grande e forte muralha fechando a passagem à sua frente. O pequeno portão estava fechado e holofotes vasculhavam cada centímetro do perímetro rapidamente. As explosões e a algazarra haviam alertado à todos. O som de homens correndo e cuspindo ordens era audível mesmo de onde ele estava. Disparos começaram a acontecer de ambos os lados causando pequenos flashs na escuridão.

Ele foi se aproximando cada vez mais, mas seus perseguidores também. Já não virava mais para olhar qual a distância deles, pois o som dos passos denunciava a sua proximidade.

Do nada um novo disparo soou próximo à sua cabeça, mas desta vez vindo de seus aliados. Com o canto do olho ele percebeu que o disparo o salvara de um adversário muito próximo, deixando seu corpo estatelado no chão.

Mas ele nem teve tempo de agradecer, pois saindo, nem imagina de onde, um deles saltou derrubando-o. Seu fuzil caiu alguns metros à frente e ele só teve tempo de girar o corpo para cair de costas e ter uma chance de escapar. Tão logo bateu de costas no chão o atacante saltou sobre ele lhe obrigado a esticar as pernas para o ar freando seu bote. Com as mãos ele tateou à procura da pistola e tão logo conseguiu lançá-lo no ar, disparou repetidas vezes. “Seis escapadas”, pensou ele

Os disparos dos aliados ainda tentavam lhe dar cobertura, deixando a maioria deles afastados. Ele se levantou e começou a correr enquanto escutava os gritos de amigos e colegas, acima do som dos disparos, lhe incentivando. À sua frente o portão começou a abrir enquanto os disparos de ambos os lados intensificaram.

Do pequeno portão surgiram três aliados disparando e fazendo sinal para que corresse ainda mais. Isso como lhe deu um novo ânimo e seus passos pareciam ainda mais decididos.

Mas, e sempre há um ‘mas’ em tudo, os olhares de seus três aliados mudaram da raiva para a surpresa enquanto olhavam para algo atrás dele. Ele não pensou em se virar, mas um frio percorreu sua espinha.

Ainda mais próximo ele saltou em direção ao portão, para mãos espalmadas prontas para pegá-lo.

No entanto seu saltou foi freado no ar com um forte tranco, embora tenha sido agarrado pelos amigos. Um mísero instante que pareceu congelado no tempo. Do canto de sua boca um filete de sangue escorreu ao mesmo tempo que suas pupilas se dilatavam.

Ele apenas pensou – “bem que poderiam ter sido sete” – antes de ser violentamente puxado para a escuridão por aquela coisa.