sexta-feira, 26 de maio de 2017

Material de Apoio: Curso de Heráldica VII


PARTIÇÕES DO ESCUDO

Pode parecer a mesma coisa, mas ‘Partição’ (chamadas também de Ordinária) necessariamente não está relacionado às ‘partes’ do campo do escudo (vistas na postagem anterior). O escudo possui partes específicas, que não importa o que fizermos, sempre estarão ali nos orientando sobre uma área do escudo. As partições, diferente disso, indicam que o campo do escudo está dividido como que montado. Nesses casos dizemos que o escudo está partido.

Um detalhe importante tem relação com a natureza dessas partições e sua noção exata é crucial tanto para a compreensão do que vemos, quanto para descrevermos o brasão. A partição é como se uníssemos duas (ou mais partes) de campos em um só, e isso é muito importante de ser entendido. A prática de dividir campos de brasões e unir partes em um só, comumente chamada de ordenamento, e expressava soberania, aliança, descendência, ocupação de um território etc.

Inicialmente a forma de realizar esse ordenamento era por dimidiação - apenas unindo metades (ou fragmentos, conforme o tipo de partição) de cada brasão para compor um novo. A história dá sinais de que a prática, diferente do que muitos pensam, não surgiu por questões militares, e sim matrimoniais. O normal (e era entendido assim) era que o brasão da esposa fosse partido na vertical ao centro e unido ao do marido, tal qual uma anexação, visando deixar claro à quem as terras de herança dela pertenciam agora. Assim o marido mantinha seu brasão intacto e a esposa possuía um brasão partido (o do marido à destra/direita e o da esposa à sinistro/esquerda). Essa prática não foi muito longeva, entrando em declínio no século XV, já que criava na maioria das vezes brasões confusos e esteticamente desagradáveis. Mas pior do que isso, muitas vezes a dimidiação criava algo que pareceria ser um novo brasão.




A dimidiação foi sendo substituída pelo impalamento. Conforme perceberam os problemas que a dimidiação causava, a primeira resposta foi de tentar colocar em cada parte dois terço do brasão original, espremendo-o, tentando manter o máximo da estrutura original. Por lógica, logo começaram a espremer todo o brasão e colocá-lo de cada lado sendo que os primeiros exemplos remontam o século XIV. O impalamento é a prática de reduzir os brasões que serão introduzidos na partição de forma que mantenham a sua estrutura total em cada parte. Esta prática é utilizada até os dias de hoje.



Não há uma regra específica que limite o número de brasões impalados. Um exemplo extremo disso é o brasão de Richard, 2º Duqe de Buckinghan e Chandos, como nada menos do que 719 brasões impalados.


As ordinárias são diferentes das honrarias (ou peças de honrarias, que veremos futuramente) que são peças colocadas sobre o escudo, dando a impressão de que ele também está montado. Por que isso é importante? Para começar para termos uma adequada leitura do brasão. Em segundo por uma questão de interpretação do que ele representa, pois uma honraria é concedida e uma partição é criada ou conquistada. Além disso, como já vimos nas regras da heráldica, não podemos colocar cor sobre cor, ou seja, não podemos colocar esmalte sobre esmalte ou metal sobre metal – a chamada regra da contrariedade das cores. Mas como a própria definição de partição nos esclarece, ela não coloca algo sobre algo, mas algo ao lado de algo. Sendo assim, poderemos sim colocar um metal ao lado de um metal ou um esmalte ao lado de um esmalte, ignorando a regra. Essa regra da utilização das cores está intimamente ligada à questão das honrarias. Veja a imagem abaixo para ficar mais claro:

Partições Ordinárias
Honrarias

Temos aqui outro detalhe para atentarmos na relação entre ordinárias e honrarias. Os nomes que usamos para nos referirmos às ordinárias, além de terem ligação ao tipo de partição, também podem estar relacionados às honrarias sob a forma de elementos geométricos simples no escudo de forma semelhante às partições. Essa confusão ocorre, pois as várias ordinárias recebem seu nome conforme a posição, forma ou sentido com o qual o escudo está partido. Esses mesmos nomes são utilizados pelas honrarias para demonstrar a posição, forma ou sentido delas sobre o campo do escudo. Veremos isso no futuro.

Visualmente delimitamos a partição por uma linha (ornamentada ou não) dividindo o campo do escudo e percorrendo-o de borda a borda. Existe uma grande série de partições que foram e são utilizadas na heráldica. Elas são divididas em dois tipos: as ordinárias e os diminutivos de ordinárias. Quando o escudo não possui partições dizemos que ele está Pleno (limpo).

Partições Ordinárias
Também conhecidas por honoráveis, as partições ordinárias são consideradas as principais ou primeiras, pois delas todas as outras teriam se originado. Há alguma controvérsia conforme o século ou a escola heráldica que se usa como base, variando entre sete e dez partições ordinárias. Trabalharemos com oito partições ordinárias, aquelas mais amplamente aceitas. São elas: Partido (Pale), Cortado (Fess), Fendido (Bend), Talhado (Bend Sinister), Quartelado (Quartely ou Cross), Franchado (Saltire), Em Asna (Chevron - e sua variação em Em Asna Invertido, embora muito raro) e Terciado (Pall - e suas variações). A linha delimitadora da partição ordinária passa pelo centro do campo do escudo, não necessariamente dividindo-o em duas partes iguais.


Partido: uma linha partindo o escudo na vertical em seu centro.



Cortado: uma linha partindo o escudo na horizontal em seu centro.

Fendido: uma linha partindo o escudo na diagonal descendente da esquerda (sinistra) para a direita (destra), partindo de seu canto superior.

  
Talhado: uma linha partindo o escudo na diagonal ascendente da esquerda (sinistra) para a direita (destra), finalizando em seu canto superior.



Quartelado/Esquartelado: duas linhas (horizontal e vertical) cruzando-se ao centro do escudo. Seria uma combinação das partições partido e cortado. Desta união formam-se quatro partes chamadas de quartel.



Franchado/Esquartelado em Aspa: duas linhas verticais partindo de ambos os cantos superiores e se cruzando ao centro do escudo. Seria uma combinação das partições fendido e talhado.




Em Asna: duas linhas diagonais se encontrando ao centro do escudo partindo de sua parte inferior formando um “v” invertido. A Asna Invertida seria formada por duas linhas diagonais que partem dos cantos superiores do escudo e se encontram no centro, formando um “v”.

  

Terciado: escudo dividido em três partes. O terciado pode ser dividido principalmente em tipos. O mais comum e que dá o nome à partição tem linhas que se encontram sem eu centro, tendo partido dos cantos superiores e da base do escudo, formando um “Y”, chamado de Terciado. O Terciado Invertido seria um escudo dividido em três partes, com linhas que se encontram em seu centro, tendo partido duas delas das laterais inferiores do escudo e um do centro da borda inferior, formando um “Y” invertido. O Terciado em Faixa é composto por duas linhas horizontais e paralelas. O Terciado em Pala é composto por duas linhas verticais paralelas. O Terciado em Banda é composto por duas linhas diagonais paralelas descendentes da esquerda para a direita. O Terciado em Barra é composto por duas linhas diagonais paralelas ascendentes da esquerda para a direita.  Alguns autores chamam as variações do terciado como sendo partições sub-ordinárias. Com relação aos Terciados, ainda, é importante ressaltar uma questão importante. As partições representam a junção de partes de escudos diferentes. Neste sentido, quando temos um escudo terciado, teremos três partes ‘diferentes’, não importando qual variação seja. Para terminar, ainda temos o Terciado em Mantel, semelhante ao terciado invertido, mas com linhas arredondadas tal qual uma chave deitada para separar a base.

  
  



Temos mais duas partições que não se enquadram nem nas oridnárias principais e nem nos diminutivos - são o Gironado e o Contra-quartelado. O Gironado seria a união das partições quartelado e franchado, formando normalmente oito partes triangulares, chamadas de girões. Esta quantidade pode variar de seis à doze girões no campo do escudo. Já o Contra-quartelado ocorre quando dois quartéis opostos de um escudo quartelado tem seu interior também quartelado.


 


Diminutivo das Ordinárias
Os diminutivos das ordinárias, também chamados de Variações de Ordinárias, existem, embora poucas vezes acabem por representar frações de dois escudos complexos. Em uma linguagem simplista, os diminutivos das partições seria como se fracionássemos dois escudos no sentido de algumas partições. Eles são em número de cinco: Barry (oriundo do cortado), Paly (oriundo do partido), Bendy (oriundo do fendido) e Chevronelly (oriundo do chevron), Chequy (oriundo do quartelado) e o Lozengy (oriundo do franchado). A heráldica alemã considera o gironado uma variação, enquanto a heráldica inglesa o considera como uma ordinária propriamente dita.





 




Combinação das Ordinárias
As combinações acontecem quando um dos campos de uma partição é ele mesmo é particionado (uma ou mais vezes, em alguns casos). Para que as combinações sejam consideradas assim é necessário que cada uma das três partições sejam um elemento em si. As partições ordinárias podem ser combinadas de quatro formas: o Partido cortado, o Cortado partido, o Fendido Talhado e o Partido e Cortado combinados.



Pode haver confusão entre a partição ordinária quartelada, o diminutivo Chequy e o combinado de partido e cortado. A diferenciação está na quantidade de quartéis, enquanto o quartelado tem apenas quatro e o Chequy tem mais de vinte, o combinado pode ter 6, 8, 10, 12 ou 16 quartéis.



Descrição
Tendo claro quais são as partições ordinárias nossa preocupação passa a ser como descrevê-las apenas verbalmente. Nossa preocupação aqui é apresentar a partição e os esmaltes que a formam de uma maneira que quem o descreve é perfeitamente entendido por aquele que o escuta, sem a necessidade de imagem. Primeiramente anunciamos que o escudo está partido e o tipo de partição (com uma pequena variação que será exemplificada nos exemplos, abaixo), logo em seguida a ordem dos esmaltes. Mas qual a ordem correta para começar a descrever as cores?

Começamos apresentando o esmalte que estiver no topo do escudo ou em maior quantidade no topo do escudo, passando em seguida para o segundo esmalte (quando apenas com dois esmaltes como no caso de Cortado, Fendido, Talhado, Franchado, Em Asna e Em Asna Invertida). Se houver dois esmaltes em igual quantidade no topo do escudo, começamos descrevendo aquele que estiver à esquerda (sinistra), passando logo em seguida para o da direita (Partido) e seguindo no sentido horário (Quartelado). No caso do Franchado e do Quartelado, que temos cores duplas, as nomeamos aos pares (veja exemplos abaixo).

 De ouro partido em vermelho
ou partido de ouro e vermleho

De prata, cortado em azul
ou cortado de prata e azul

Fendido, o primeiro em prata,
o segundo em verde

Talhado, o primeiro em vermelho,
o segundo em preto

Em Asna, o primeiro em vermelho,
o segundo em ouro

Em Asna Invertida, o primeiro em prata,
o segundo em verde

Franchado, o primeiro e quarto de ouro,
o segundo e terceiro púrpura

De ouro, esquartelado em vermelho

Quando temos três esmaltes as coisas se complicam um pouco. No caso do Terciado, apresentamos primeiramente o esmalte do topo, passando para o da direita e, em seguida, o da esquerda (sentido horário a partir do topo). Com o Terciado Invertido, o Terciado em Pala e o Terciado em Mantel, começamos com o esmalte mais à esquerda e seguimos o sentido horário para os próximos. Para os Terciados em Faixa, Banda e Barra, começamos com o esmalte no topo ou em maior quantidade no topo e passamos a descrever os seguintes pelo esmalte do meio e depois o da base.

Terciado, 1º em azul, 2º em verde, 3º em vermelho.
Brasão da vila francesa Avon.


Terciado em Faixa, 1º em ouro, 2º em argenta, 3º em vermelho.
Brasão da vila francesa de Chartres.


Terciado em Banda, 1º argenta, 2º verde, 3º preto.
Brasão de Chapitre de Cosne.


Terciando em Barra, 1ª em ouro, 2º em vermelho, 3º em azul.
Brasão de La Uzun.


Terciado invertido, 1º em ouro, 2º em vermelho, 3º em verde.
Brasão da vila francesa Issans


Terciado em Pala, 1º em ouro, 2º em preto, 3º em argenta.
Brasão de Mazerolles Du Razés
  
A descrição do Gironado leva em consideração dois elementos – quantidade de girões e cor. Quando o escudo tiver 8 girões, dizemos apenas que o escudo é ‘gironado’, e se ele tiver mais, dizemos ‘gironado em’ e acrescentamos a quantidade de girões. A seguir introduzimos as cores tomando por base uma posição do primeiro girão antes do topo do escudo (ver imagem abaixo).



Para a descrição do Contra-quartelado temos que tomar um cuidado em especial. Começamos sua descrição pelo quartel superior à esquerda (que estará quartelado), especificando-o como se ele fosse um escudo em si e depois declaramos o quartel da direita. Abaixo temos: Quartelado, o 1º e 4º contra-quartelado – o primeiro e quarto de ouro, o segundo e o terceiro vermelho – o segundo e terceiro azul



Para as combinações, apresentamos primeiramente a partição. Em segundo o que vier primeiro – ou a parte maior ou a combinação – descrevendo seus esmaltes. Abaixo temos dois exemplo mais comuns. O primeiro deles é partido, o 1º em ouro, o segundo cortado de vermelho e azul; o segundo é cortado, o primeiro em ouro, o segundo partido de azul e verde.





Um esclarecimento importante. Estamos apresentando as partições, e suas descrições, nos formatos mais simples, pois são base para muitos assuntos vindouros Bem sabemos que escudos partidos podem conter fragmentos ou escudos complexos em sua composição e a sua adequada descrição vai muito além do apresentado no parágrafo anterior. Para descrevermos escudos partidos mais complexos precisamos apresentar muitos outros elementos. A descrição adequada é um conjunto cumulativo de conhecimentos e conceitos.

2 comentários:

Vinicius Pedroso de Siqueira disse...

Espero que continue com seu material, pois está sendo muito útil para mim

João Brasil disse...

Que bom que está gostando... Pretendo continuar sim, e espero que consiga manter uma periodicidade mais exata!!!