quarta-feira, 5 de junho de 2019

Sobrevivência Incerta - Um história para Starfinder - Interlúdio


Uma história para Starfinder
Sobrevivência Incerta

Interlúdio
Duas espaçonaves paradas no meio do espaço, muito próximas e motores desligados. Era no mínimo curioso. Mas quem tem o costume de percorrer a imensidão em aventuras ou combates sabe que muitas vezes nada mais é do que um simples encontro entre amigos, e depois dos últimos acontecimentos só o que a tripulação de Huaa queria era um pouco de paz.

Icarus e Nimbus estavam muito próximas. O raio trator da Icarus, embora projetado para objetos pequenos soltos no espaço não maiores que um corpo, era o suficiente para manter a posição estacionária de uma nave que não estava tentando escapar. Ambas moviam-se muito vagarosamente numa espécie de ballet sincronizado. Dentro da Icarus os cinco tripulantes reunidos realizavam uma verdadeira algazarra.

Ao redor da mesa de refeições, na zona comunal, todos estavam largados confortavelmente em suas poltronas. Os pratos vazios mostravam que a refeição havia sido farta e prolongada, mas a animação ainda era grande. Todos tentando falar ao mesmo tempo numa mescla de conversas paralelas, discursos inflamados unidos à um jogral, tudo sobre os últimos acontecimentos que ambas equipes haviam passado.

Nytaa, de pé em sua poltrona, descrevia os combates que aconteceram saltando de um lado para o outro enquanto tentava demonstrar cada ação e detalhe. Sakesh, com os pés sobre a mesa, apenas concordava balançando a cabeça afirmativamente como que aprovando cada detalhe com um semblante de professor orgulhoso. Target questionava tudo para poder montar o cenário o mais rico possível, extremamente curioso com tudo o que tinha acontecido. No outro canto da mesa Kroan apenas reclamava de cada ação que as duas haviam feito e do perigo que correram desnecessariamente. Depois foi a vez de Target e Sakesh narrarem seu momento de ação durante a transação comercial, tudo igualmente encenado e floreado. Mais afastada, a capitã Huaa assistia à tudo com os olhos brilhando, extremamente satisfeita com aquele quadro. A família estava reunida.


Depois de mais algum tempo de confraternização os ânimos foram naturalmente se tranquilizando. Já havia passado o clímax de toda a euforia pelo reencontro e as novidades de cada um. Um clima mais sério pairou sobre a mesa.

“- O que faremos agora capitã?” – questionou Sakesh.

“- O que já havíamos decidido - ir para Absalom. Tenho assuntos para resolver lá, além de que acho que as informações sobre essa raça de criaturas estranhas será muito bem recompensada pela Associação Starfinder... e sei que vocês querem gastar a parte de vocês do pagamento. Ele foi bem suado e valeu cada crédito em nossas contas.”

“- Estamos à algumas horas de lá” – disse Kroan despretensiosamente enquanto dava uma olhada em seu comlink – “será ótimo podermos dar uma parada tranquila para reparos na nave.”

“- Perfeito” – disse Huaa levantando-se – “Sakesh, vá na Nymbus e fique como escolta já que ainda estamos com muitas avarias e sistemas capengas. Target, preciso que revise o sistema elétrico da Icarus antes de chegarmos em Abaslon. Nytaa, organize todas as informações que conseguiu levantar sobre aquelas criaturas para barganhamos com a Sociedade Starfinder. Kroan, enquanto nos leva até lá faça os diagnósticos necessários para os reparos que teremos que fazer. Eu vou revisar os equipamentos e me preparar para uma reunião desagradável.”

Automaticamente todos se colocaram em movimento. Da mesma forma que sabiam descontrair, também sabiam como e quando realizar suas tarefas prontamente. Embora aparentemente um grupo estranho e que poucos acreditassem serem uma mesma tripulação, eles agiam como engrenagens muito bem calibradas. Em alguns minutos Sakesh e Kroan já estava colocando as naves em movimento rumo à Absalon e todos estavam empenhados em suas tarefas pessoais para que tudo estivesse pronto no momento devido. Em algumas horas estariam aportando num dos braços da gigantesca estação Absalon e teriam um pouco de diversão e sossego por algumas horas ou dias, se tivessem sorte.

Em sua cabine Huaa revisava alguns arquivos tentando ocupar sua mente. A parada não programada que fizeram no planetoide a fez esquecer por algum tempo do motivo de estarem indo para Absalon. Os créditos que Sakesh e Target conseguiram com a troca em Akiton era apenas o primeiro passo para algo maior. Seus companheiros sabiam que havia algo por trás de seus movimentos nos últimos meses. A investida no quartel abandonado, a procura por alguém em especial naquele reduto de contrabandistas e a caça de algo valioso para conseguir créditos suficientes para uma troca por informações. Tudo começara com uma história que havia escutando de um velho membro da Starfinder. Uma história que não deveria ser contada. Uma história perigosa em mãos erradas. Era um segredo, e por isso mesmo, algumas pessoas já o conheciam. Embora sua tripulação não soubesse as motivações exatas, todos confiavam nela e a seguiriam de qualquer forma.

Mas Huaa ainda estava preocupada com esse próximo passo. Conseguir a informação que precisava, ainda mais com quem ela teria que conseguir, era muito perigoso. Se ele desconfiasse do que se tratava ela o teria como adversário e uma corrida contra o tempo começaria. Ela sabia que não existe lealdade, amizade ou honra entre caçadores de aventuras que estão atrás de relíquias tão poderosas e ela deveria manter no anonimato suas reais intenções. Tudo teria de ser perfeito.

o  O  o

Esse era mais um dia comum na vida dela. Circular nas áreas mais periféricas entre um braço e outro da Estação Absalom, evitar o centro o máximo que pudesse, esquivar-se de comissários e seguranças particulares e conseguir alguns recursos para manter-se viva por mais alguns dias. Quando se aprendia como aquela gigantesca estação funcionava e a forma como todas as suas peças se moviam quase que organicamente, era necessário apenas adaptar-se e seguir em frente.

Ótima observadora, ela havia aprendido rapidamente a reconhecer os sinais de perigo, os caminhos mais seguros, os bairros mais amigáveis, as rotas de fuga mais eficazes e onde encontrar a comida mais facilmente. Não fora por diversão ou esporte, mas necessidade, uma professora rigorosa e implacável.

Ela ainda tinha dois problemas para manter seu plano diário funcionando. Primeiro que ela era muito jovem, pelo menos em aparência para os padrões humanos, a principal raça residente da estação. Essa impressão sempre lhe transparecia uma aura de indefesa ou fraca. Por um lado isso era ótimo, pois não imaginavam na enrascada que estavam se metendo quando a enfrentavam.

Em segundo porque ela era uma elfa. Sim uma elfa em pleno espaço, por mais contraditório que isso possa parecer. Mesmo que sua raça tenha uma fama considerável, se comparado ao seu mínimo número de membros no pós-lacuna, era difícil que não fosse reconhecida facilmente, gerando comentários e curiosidade. Ela se sentia como uma iguaria rara em uma vitrine de um antiquário famoso, sendo vendida por um preço que poucos pudessem pagar. Isso a incomodava muito. Ser uma mercadoria já tinha acontecido com ela e sua atual situação era fruto dos horrores que já passara.

Não por menos que a pesada capa e o capuz eram vestimentas inseparáveis. Dependendo de onde você estivesse em Absalon alguém andando com capuz sempre impunha algum respeito e poucos se incomodavam em descobrir quem estava escondido por baixo. Esse fora um dos muitos aprendizados que ela desenvolvera sozinha ao longo do tempo na Estação. Sim, sozinha, desde que sua família fora morta após meses sequestrados e com seu pai obrigado a trabalhar para aquela gangue maldita. Desde a fatídica e improvável liberdade, após aquela guerra de gangues com a participação de seguranças privados da Alterax, que ela vagueia e sobrevive. Dia após dia. Ela ainda se pergunta por que sobreviveu e sua família não.

O aprendizado se desenvolveu nela de muitas formas. Sua primeira vitória foi não morrer de fome, depois de três dias perambulando pelos corredores sem saber o que fazer e desejando ter tido o fim de seus pais. Ela chegou a procurar a Guilda dos Síndicos em busca de ajuda, mas não conseguiu nem sequer chegar perto do prédio. A ajuda existe, mas nem todos têm o benefícios dela. Para todos, ela era apenas uma mendiga, uma desafortunada, uma abandonada. Aos poucos começou a descobrir uma pequena aptidão para passar desapercebida nos lugares, entrar e sair sorrateiramente e, em casos especiais, brilhantemente se passar por alguém que não era com uma boa lábia e muita criatividade.

Mais um tempo e ela começou a se dedicar a conhecer melhor o local onde estava. Absalon tem muitos adjetivos, mas fonte de conhecimento é um dos principais. Como centro dos Mundos do Pacto, informação poderia ser encontrada em todo o lugar, desde que se soubesse procurar. A estação era uma casa para quase todas as raças do sistema e além, onde tinha-se um pouco de tudo para conhecer e aprender. Muitas guildas de comerciantes, sedes de empresas e naves chegando e saindo todo o dia vindas de todos os lugares. Era muita informação disponível. Se tudo isso não bastasse, ainda havia a seda da Starfinder, onde seus membros gostavam tanto de aprender quanto de professoralmente ensinar qualquer um.

Para que ela precisava de informação? Por um lado ela se convencera de que era por pura vingança. Queria descobrir exatamente quem sequestrará sua família à mando daquela maldita guilda e por quê. Queria encontrar essa pessoa e, de alguma forma, acabar com ela. Mas na verdade ela tinha curiosidade em descobrir o que seu pai fazia de tão importante à ponto de ser levado junto de sua família para que fosse obrigado a trabalhar para eles. Os elfos, principalmente depois da Lacuna, tinham diminuído muito em importância em um mundo tão vasto e tecnológico. Eles viviam em um isolamento auto-imposto na cidade de Solvyrian, em Castrovel. Embora mantivessem sua vida sob os desígnios de sua raça, seu pai era o que poderiam chamar de pesquisador. Mente curiosa e habilidoso com letras ele passara muito tempo procurando algo ‘importante’, embora não comentasse com os filhos o que seria.

Para tudo isso, para começar sua jornada de descobrimento ela tinha apenas um nome que o pai deixara escapar numa conversa, quando ela insistentemente questionava o por quê de terem sido sequestrados – Kazavon.


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