terça-feira, 22 de outubro de 2019

Resenha: Baker Street - RPG in World of Sherlock Holmes


Resenha
Baker Street – RPG in Wolrd of
Sherlock Holmes


No início dos anos oitenta o jovem João ganhou de presente do seu avô uma coleção completa das obras de Sherlock Holmes. Mal ele desconfiava que sua vida nunca mais seria a mesma. Depois disso ele acumulou leituras de várias traduções diferentes, escutou audiobooks, assistiu filmes e seriados e jogou vários boardgames, tudo relacionado ao grande detetive. Não era de se admirar que mais cedo ou mais tarde eu me deparasse com seus RPGs... Pois aqui está Baker Street RPG, de Bryce Whitacre e lançado pela Fearlight Games em 2015.

Baker Street já está na minha mão à algum tempo, mas não tive oportunidade de me aprofundar muito nele no sentido de longas campanhas. Ele possui duas coisas que me agradam – tema e mecânica. O primeiro parágrafo dessa resenha acho que já deixa claro o quanto adoro o tema, então vamos pular essa parte. A mecânica, principalmente se pensarmos em suas resoluções de ações com as rolagens tem uma aleatoriedade e imprevisibilidade que faz uma grande homenagem aos livros de Conan Doyle. Mas vamos por partes...

A premissa do RPG é de que Sherlock Holmes está desaparecido, mas seu legado não. Os jogadores assumem o papel de detetives que auxiliam John Watson na resolução dos casos que continuam a chegar na Baker Street. 

Cada jogador assume o papel de um personagem cuja profissão possa contribuir no processo de investigação. Estamos falando de pessoas comuns da sociedade britânica do final do século XIX, então nada de superpoderes. O cerne da ficha desse personagem é a sua Profissão (real). São disponibilizadas 35 profissões (mas há a possibilidade de criação) onde constam suas perícias (algo que o personagem é treinado em fazer) com suas respectivas graduações (3 é o mínimo inicial), alguma (ou algumas) especialidades (algo específico de sua profissão que é utilizado em determinadas situações) ligadas à essas perícias, além de Status (ferramenta de intereação), Classe Social e Salário Anual. Todos elementos muito importantes no cotidiano daquela época.


Completamos a criação de nosso personagem gastando 30 pontos (chamados de pontos de investigador) na aquisição de outras perícias (não treinadas por nossa profissão), especialidades ou das características à um itens (características que escolhemos para um item que influencia em nossa jogada, como literalmente um “pé de coelho”). O interessante é que o custo para melhorar a graduação de uma perícia que já temos é progressivamente caro ao mesmo tempo que não vale muito à penas encher o personagem de perícias de graduação baixa. Tem de ser uma ação muito bem pensada.

A explicação para essa sistemática é que todo a mecânica se baseia em perícias e habilidades, assim como as aventuras nos livros de Conan Doyle. As perícias, especializações, item com características, tudo, se reverte em dados em nosso pool de d6s onde mais dados significa mais chances de um sucesso mais significativo (sucessos são os valores acima de 3). Você joga junto o Dado Sherlock, onde três de suas faces representam respectivamente Watson, Moriarty e Sherlock, e cada uma influencia sua rolagem de alguma forma. O Watson oferece assistência gratuita para ajudar outro jogador ou um sucesso extra. Moriarty faz com que todas as faces de dados não bem-sucedidas sejam contadas contra os sucessos! A face Sherlock, o próprio Sherlock, permite que você nomeie um número de face de dados e esses dados agora contam como sucessos.


As rolagens, como na maioria dos RPGs, servem para resolução de ações realizadas pelos personagens baseadas em suas perícias... inclusive atacar (ora, não perceberam que não temos nem atributos?). Há combates nesse sistema também, mas não esqueçamos que o elemento crucial nas aventuras de Sherlock Holmes é a investigação. Os combates – ataque e defesa - nada mais são do que perícias em ação onde o maior sucesso na rolagem consegue sua intenção – acertar o ataque ou escapar do ataque. Mas o mais interessante nos momentos de ataque é a regra de iniciativa que se mostra extremamente original. Não há um valor ou jogada de iniciativa para organizar a ordem das ações. Após o primeiro participante (jogador ou mestre) realizar o ataque, ele escolhe quem agirá em seguida (outro jogador ou um dos personagens do mestre)... ou seja, isso exige uma ação pensada e calculada.

O grosso do jogo concentra-se na Investigação. Nesse momento os jogadores entram em uma etapa delimitada por várias sub-fases para descobrir/descartar pistas baseadas nas chamadas Perícias do Detetive (são três perícias consideradas cruciais à um detetive: Observation, Reason e Deduction. A primeira rodada se chama rodada da Observação. O jogador com a perícia de observação mais alta realiza uma rolagem para escrutinar a cena (podendo ser engrossado com dados dos colegas) revelando pistas que são apresentadas sob a forma de cartões-pistas (quantidade determinada pela dificuldade da jogada). Cada cartão possui três pistas onde necessariamente alguma delas à linha correta de investigação para solucionar o caso. Na rodada da Razão o personagem com a perícia Razão mais alta faz uma jogada para ter a chance de descartar alguma (ou algumas) das pistas falsas. A última fase é a fase de Dedução onde o personagem com maior perícia Dedução pode rolar para inquerir o Mestre sobre as pistas.

Essa parte de investigação de cena pode parecer algum muito no estilo boardgame. Mas daqui em diante temos uma ação mais role-play e isso está ligada às Ameaças. O processo de descoberta das pistas é apenas uma série de setas que os personagens começam a seguir para encontrar uma rota. Ao descobrirem essas pistas eles começam a delimitar pessoas e locais de interesse, locais para retornar e procurar outras e novas pistas, tudo isso vai aumentando o grau de ameaça da investigação conforme as interações começam a acontecer e aumentar. Essa ameaça é usada como emboscadas, fugas, atentados, tentativa de destruição de provas, etc.


Baker Street, no geral, é fácil e simples de ser jogado e ensinado. É uma interessante forma de introduzir novatos ao RPG justamente por seu visual bem delimitado em momentos e cenas. Concordo que ele é muito episódico com uma estrutura definida em casos específicos e uma formação linear principalmente em seus casos pré-prontos. Mas quando se alia a mecânica de Baker Street com um mestre que resolva criar seus próprios casos, esse caráter episódico e linear cai por terra e estamos dentro de uma campanha com muitas camadas. Claro que para isso é necessário muito cuidado e preparação do Mestre, mas os resultados são excepcionais. Sua indicação ao RPG do ano no Golden Geek RPG 2015 não foi por acaso.

Esse RPG não é para qualquer grupo. Seu caráter realista e de tema específico pode não agradar á todos o que faz dele um RPG de nicho. Ao mesmo tempo ele é um prato cheio para os amantes do gênero, de Agatha Christie à True Detectives. Se você quiser casar a mecânica de Baker Street com um pouco (ou muito) de um elemento narrativo próprio de muitos RPGs de hoje não há problema, embora minha experiência com ele seja pouca, mas tanto a temática quanto a mecânica abrem margem para isso. Os momentos de interação, em um cenário onde o status e a sociedade são sempre presentes e cruciais, são perfeitos.

Nota: 8,5

Suplementos
Baker Street possui quatro suplementos lançados. O principal deles é Sherlock by Gaslight (2016) onde temos uma série de novas ferramentas para construção de personagens e cenários. Temos muitas novas profissões, assim como textos informativos aprofundando elementos de status e classes sociais. Além disso, ele apresenta uma grande quantidade de localidades de Londres e arredores com descrições e dicas de como usar narrativamente ou em casos. Ele trás também dois longos casos para utilização.


Os outros três suplementos são três grandes conjuntos de casos: Baker Street Casebook #1 (2015), Baker Street Casebook #2: Missons from Mycroft (2016) e Baker Streer Casebook #3: Strage Cases & Distant Places (2018). Todos eles trazem uma série de casos com todos os recursos e dicas necessários para jogar.




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